As pérolas do Caminhar é um texto do ambientalista peregrino Fabio José Dantasde Melo, que gentilmente compartilha conosco. Uma deliciosa reflexão sobre o ato de peregrinar e os aprendizados que adquirimos nessa jornada.
“Em cada passeio na Natureza, cada um recebe muito mais do que está procurando” – John Muir
Caminho da Fé
Caminhar, peregrinar, é uma atividade (e não um esporte como bem ressalta o filósofo Frédéric Gros em seu livro Caminhar, uma filosofia) que pode nos servir de prática de auto-conhecimento visto não se constituir num exercício de disputa, nem de promoção pessoal, e muito menos subjugação de forças/desafios naturais (não me parece que esteja no coração de peregrinos a disposição de, ao final de um caminho, vangloriar-se de tê-lo vencido, conquistado). A intenção é a conexão, é a interação natural e espontânea com todo o entorno, em suma, é entrar no “fluxo de vida” pelo qual o Caminho nos leva e experienciar/absolver seus efeitos e lições. Hermann Hesse, em sua obra Caminhada, diz: “(…) não buscamos no caminhar a meta, senão só o próprio prazer do caminhar, de estar a caminho“.
O caminhar como uma filosofia de vida
Caminho da Fé – Inconfidentes MG
O Caminhar nessa perspectiva guarda muita afinidade com a despojada prática do treinamento zen, desprovida de ganhos, de busca de sensações surreais, de engradecimentos: é simplesmente estar presente, atento a tudo o que ocorre em sua volta, sem expectativas. O mestre errante Matsuo Bashô escreveu certa vez que “todo dia é uma jornada, e a jornada em si é um lar“. Com isso, podemos fazer uma extrapolação e enxergar o caminhar como uma filosofia de vida e não apenas uma experiência temporalmente delimitada, vivida em espaços geográficos específicos tais como rotas de peregrinação ou caminhos antigos na Natureza selvagem. É um estado da mente que emerge a partir de uma transformação nos modos de ver, sentir e agir da pessoa, modelados nos recorrentes aprendizados nos caminhos. Tudo numa caminhada, peregrinação, nos ensina; é preciso apenas abertura, sensibilidade, presença.
Caminho da Fé
O Caminho é também um espaço relacional. E a noção de “relação” aqui não se restringe às pessoas com as quais andamos ou outras com as quais interagimos em hospedarias ou nas paradas no caminho. Mas abrange todos os seres não humanos e, até mesmo, o território por onde segue o caminho, pois, como bem destacou o naturalista Aldo Leopold, o solo, a água, as plantas também são parte da comunidade biótica. Com a expansão da nossa ética para incluir tudo o que vive à nossa volta, experimentamos uma integração com o mundo natural, nossa verdadeira casa, no dizer do naturalista John Muir: “Ir para o mato é ir para casa”. O entomologista Edward Osborne Wilson cunhou (em 1984) o termo biofilia (tendência natural a voltarmos nossa atenção às coisas vivas) o qual, por extensão, expressa que para sermos plenamente humanos temos que nos ligar a outras espécies, pois dependemos delas. E as caminhadas são o lugar propício para a satisfação desta demanda da alma. O poeta Manoel de Barros traduziu essa tendência inata em forma poética: “Quando os meus olhos estão sujos de civilização, cresce por dentro deles um desejo de árvores e aves”.
A ancestralidade da ação de caminhar
Caminho de Cora Coralina
Inclusive a ancestralidade da ação de caminhar, muito bem explanada pelo explorador norueguês Erling Kagge em seu A Arte de Caminhar – um passo de cada vez, nos põe em “relação” com toda a história de nossos antepassados, tanto familiares quanto da linhagem humana, o que é algo poderosamente valioso. Acredito que seja a mesma força, poder, que se manifesta nos rituais revividos pelas culturas originárias, tradicionais, que asseguram a continuidade entre os antigos e as novas gerações.
Por fim, o hábito de se lançar à caminhadas, peregrinações, tem ensinará a viver com menos, com mais simplicidade. É poderosa a descoberta que se pode viver com poucos itens. Alheios ao conforto, às falsas seguranças, à inutilidade do supérfluo, pode-se experimentar a liberdade de uma vida mais natural, sem os adornos e as futilidades da sociedade de consumo. Não se trata de fazer sacrifícios; a questão é de viver com o essencial. Cada nova caminhada (que, em última análise, é a continuidade da anterior) é um exercício de minimalismo. O escritor chinês Lin Yutang sintetizou numa frase o que poderíamos considerar o mote minimalista: “a sabedoria da vida consiste em eliminar o que não é essencial”. As caminhadas e peregrinações são ótimas preparações para um viver mais sóbrio e desapegado.
Autor: Fabio José Dantas de Melo
Se você tem um texto bacana que gostaria de compartilhar com a nação peregrina, saiba que esse canal está de “portas abertas”. Além do Fábio de Melo, a Carmem Silva de Arruda também já nos presenteou com um de seus textos. :)[:]
Denise, comparto plenamente el texto. Fabio José Dantas de Melo soube expresar o os peregrinos sentimos, e as vezes não sabemos expresar. Obrigada !
Gloria Artigas
Canela – RS
Denise, comparto plenamente el texto. Fabio José Dantas de Melo soube expresar o os peregrinos sentimos, e as vezes não sabemos expresar. Obrigada !
Gloria Artigas
Canela – RS
Verdade.
Obrigada pela sua mensagem.
Maravilha de texto e ainda muitas dicas de livros. Aguardamos outros textos. Adorei. Gratidão
Tbm adorei.
Perfeito! Peregrinar é realmente uma mudança no olhar, ver e sentir as coisas, uma transformação excepcional!
Sim, só aprendizado.